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Os REITs e os mercados (Maio 2020)

O COVID19 veio mudar muita coisa no mundo, e como não podia deixar de ser os mercados financeiros têm vindo a experienciar volatilidade acrescida desde essa chegada.

As mudanças no mundo pós-COVID serão reflectidas no mercados, como sempre acontece na história, por mais ou menos tempo que demorem.

Na última semana trouxe ao podcast da ArrowPlus o meu amigo Tiago Cardoso, analista de mercados financeiros, para falarmos daquilo que será o futuro dos mercados financeiros (no pós-COVID19).

Pode ver o podcast aqui:

Em particular, estou, como sempre, interessado em REITs – Real Estate Investment Trusts - que em termos grosseiros são fundos imobiliários cotados em bolsa.

Os REITs serão o espelho da combinação do imobiliário e os vários sectores de negócio no mundo, no fundo.

É curioso que escrevo este artigo nesta semana, em que iniciámos a abertura dos mercados com alguma pujança (alimentada pelo anúncio de uma vacina com sinais promissores, nem tanto pelo plano franco-alemão), contrariando as quedas acentuadas da última semana. Isto quando eu e o Tiago dissemos que o mercado poderia e deveria continuar a cair e pensei mesmo que poderia ser o “empurrão” que faltava para a queda.

Parece-me que teremos ainda que esperar e parece-me que ainda podemos fazer muitos mínimos (e máximos) locais antes do mercado começar a reflectir o estado real da economia.

Refiro-me por exemplo:

  • À taxa de desemprego nos Estados Unidos, que está hoje oficialmente já em 14,7% mas que toda a gente sabe que na verdade deverá ser bem mais alta;
  • Às quebras brutais de produção e consumo que se deram nos últimos meses. Mesmo com a retoma, em Portugal, notam-se quebras de 70% nos setores dos automóveis e restauração;
  • Com alguns setores em quebra “permanente”, como o da aviação comercial, do qual Warren Buffet – um investidor de longo termo – quis inclusivamente saltar fora.

A isto há a adicionar algumas coisas:

  • O índice Buffet, já que falámos nele, chegou aos 170%! Entre muitos outros indíces, é fácil perceber uma sobrevalorização desmedida do mercado.
  • Os REITs estavam até aqui a acompanhar os valores do imobiliário, de uma forma geral. Como sabe se me lê há algum tempo, sabe que considero o imobiliário sobrevalorizado à escala mundial há algum tempo.

E o que acontecerá aos mercados, nesse caso?

Empiricamente – e pelo que lhe disse até aqui (não quero fazer disto um artigo muito técnico) – acredito que vão continuar a baixar. É a minha opinião, não tenho uma bola de cristal.

Existem diversas condicionantes, para separar os REITs “bons” dos “maus”. Alguns aspectos são relaccionados com:

  • A queda dos mercados em si;
  • O sector onde estão;
  • Naturalmente, a sua condição atual e potencial de crescimento.

É por isso que investir em REITs requer muita análise e cuidado. Há REITs que podem ter um crescimento desmedido nos próximos anos enquanto outros podem literalmente abruptamente em valor e colapsar.

Por exemplo, houveram REITs com quedas de 60% no início da pandemia, porque estavam alocados ao turismo e alojamento de curta estada. Comentei isso num video para o Facebook, onde apresentei índices concretos e mostrei alguns REITs.

Esses REITs sofreram com o COVID19 no momento em que ele chegou.

Há um caso paradigmático de um REIT que eu gosto e que é um excelente exemplo para mostrar aqui. Trata-se do Service Properties Trust (ticker NASDAQ: SVC). É um REIT que investe em hoteis mas não os gere. Arrenda-os para exploração. Eis o que aconteceu a este REIT:

Este REIT caiu entre 22 de Fevereiro e os 30 dias seguintes, nada mais nada menos que 80%. Trata—se de um REIT que não explora os próprios hoteis. Tudo dito?

E se há REITs que sofreram com o virus quando ele se instalou, há outros que só reflectirão essa perda daqui a algum tempo e outros ainda não que não terão perdas.

A partir de agora, irei mostrar as análises como analista externo da XTB integralmente no canal de Youtube da ArrowPlus, a começar este mês. E acredito que estão aí a aparecer excelentes oportunidades, porque os mercados vão ter (na minha opinião) que cair mais.

Se até agora apoios, fundos, declarações, têm sido suficientes para controlar as quedas, duvido que isso aconteça daqui para a frente.

Quando estamos demasiado em baixo no remoinho, pode ser demasiado tarde para sair dele.

Acredito que estamos demasiado em baixo no remoinho.

Nota legal/disclaimer: Os investimentos em ações e REITs contêm risco e não são apropriados para todos os perfis de investidor. Este espaço não é regulado pela CMVM. O artigo não pode ser usado como aconselhamento financeiro nem pretende dar qualquer recomendação de compra de qualquer ativo.

Investir em REITs

Como já deve ter percebido, não há apenas uma forma de investir em imobiliário. Certamente terá a sua forma de investir preferida, aquela que se adequa melhor aos seus objectivos e ao capital disponível. No entanto é necessário conhecer muito bem o mercado. Por exemplo, se quiser jogar futebol não vai apenas preocupar-se em saber chutar uma bola. Vai certamente preocupar-se em saber as regras de funcionamento do jogo, vai treinar para ser melhor, vai querer estudar os melhores jogadores e as melhores equipas. No investimento imobiliário precisa de fazer o mesmo: saber as regras, conhecer os investimentos e tentar ser o melhor. Uma das formas de investimento que pode atraí-lo são os REITs, de que já lhe falámos anteriormente.

Para compreender, de forma prática, aquilo de que lhe falamos pode ver o webinar que o nosso analista Artur Mariano fez sobre o investir em imobiliário através de REITs.

O que são e como surgiram os REITs?

Os Real Estate Investment Trust (REITs), conhecidos em Portugal como Sociedades de Investimento e Gestão Imobiliária (SIGI), podem certamente ser uma forma de investimento. Surgiram nos Estados Unidos durante a década de 1960, durante o Governo de Dwight D. Eisenhower. O objectivo era permitir a todos os investidores, principalmente aos mais pequenos, investir em imóveis que gerassem rendimento.

Os REITs são, em suma, sociedades anónimas cotadas em bolsa. O principal objectivo é, por isso, a aquisição de direitos reais sobre imóveis. Em Portugal estas sociedades só podem deter imóveis dedicados ao arrendamento. Além disso, têm de ser investimentos de longa duração.

A saber: Invista apenas em sociedades aprovadas pela CMVM.

Como funcionam?

Através destes fundos, um investidor privado (seja grande ou pequeno) pode comprar pequenas partes de várias carteiras de imóveis. Assim, obtém lucros com estes arrendamentos, posteriormente distribuídos como dividendos, anualmente. Os imóveis nesta carteira podem ser dos mais variados tipos: de escritórios a centros comerciais, passando por apartamentos ou mesmo hotéis.

O valor dos títulos é definido diariamente em bolsa e depende não só da procura e da oferta, mas também da expectativa dos investidores sobre a valorização dos imóveis e dos rendimentos gerados por estes.

Vantagens e Desvantagens do investimento em REITs

Tal como todas as formas de investimento, os Real Estate Investment Trust têm vantagens e desvantagens. É, por isso, necessário conhecer bem a sua forma de funcionamento para poder decidir claramente se é um tipo de investimento que vale a pena para aquilo que pretende.

Vantagens de investir em REITs

  • O investidor não precisa de adquirir um imóvel para ser proprietário dele;
  • Também não precisa de se preocupar com a gestão do imóvel;
  • Os dividendos são atractivos, apesar da fiscalidade que racai sobre eles;
  • Os REITs têm um elevado nível de liquidez, visto que são vendidos e comprados como acções.
  • Permitem ter um portefólio de investimentos diversificados;
  • Porque estão cotados em bolsa, os REITs são regulados e auditados com mais frequência. Portanto há, neste tipo de investimento, mais transparência.

Desvantagens de investir em REITs

  • Comissões de gestão que são cobradas aos investidores;
  • Existe um elevado risco de mercado. Ou seja, o valor investido está sujeito às flutuações das cotações nos mercados.

Investir em REITs vs. Investir em Imóveis Físicos

Existem várias diferenças entre investir em fundos de investimento, como os REITs, ou investir directamente num imóvel físico. A maior diferença que pode notar e que certamente faz toda a diferença está no sentido de propriedade e gestão.

Quando compra uma casa, por exemplo, com o objectivo de a arrendar é legalmente o proprietário da casa. Tem de passar por todo o processo de escolha e compra de casa e conhece bem o espaço que vai arrendar. Por isso, qualquer questão que exista sobre o funcionamento do imóvel é da sua responsabilidade, desde manutenção a problemas legais. O que tiver de receber do arrendatário é exclusivamente para si, não terá de dividir a parcela com outros investidores. No entanto, é necessário estar disponível para ajudar a solucionar possíveis problemas que surjam com os inquilinos.

O mesmo não acontece se o seu investimento for feito através de REITs. Tal como lhe dissemos, não precisa de comprar realmente um imóvel para ser o seu proprietário nem precisa de se preocupar com a manutenção daquele imóvel. No entanto, aquilo que recebe de lucro desse investimento depende muito das flutuações das cotações de mercado. Há, por isso, que perceber qual das opções melhor se adequa àquilo que pretende do investimento.

REITs nos Estados Unidos

Os Real Estate Investment Trust surgiram no ano de 1960, nos Estados Unidos. O então presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower assinou a legislação que criou uma nova forma de investimento imobiliário. Com os real estate investment trusts, o investimento em imóveis tornou-se acessível a mais pessoas. Acima de tudo, tornou estes investimentos mais acessíveis para os pequenos investidores.

Por já existirem há tantas décadas, nos Estados Unidos é um tipo de investimento muito desenvolvido e ao qual muitos investidores recorrem no seu portefólio.

REITs em Portugal

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, em Portugal os REITs só chegaram no início de 2019. Só em Janeiro é que o Governo aprovou o decreto-lei sobre as sociedades de investimento, permitindo assim uma nova forma de investimento imobiliário. A chegada dos REITs a Portugal era há muito esperada e traz um novo cenário de investimento que permitirá a mais pessoas poder investir.

Em Portugal, os REITs são considerados SIGI, ou seja, Sociedades de Investimento e Gestão Imobiliária. Apesar desta diferença de tratamento, as SIGI são, na sua essência, REITs.

Legislação e regulação de REITs em Portugal

Em Portugal, os REITs vão ser regulados pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). É a CMVM a responsável por garantir transparência e por proteger os pequenos investidores. Com a criação de um regime jurídico, há um certo nível de profissionalização do sector imobiliário, aumentando assim a sua transparência. É, por isso, importante conhecer bem o decreto-lei do Regime Jurídico dos Fundos de Investimento Imobiliário. Pode consultar este decreto-lei através do site da CMVM.

Há alguns detalhes sobre o regime jurídicos destes fundos que talvez lhe interessem.

  • Estas sociedades têm de ser anónimas, ter um Conselho Fiscal e um Revisor Oficial de Contas (ROC);
  • O objectivo principal é adquirir direitos sobre imóveis;
  • As acções são admitidas à negociação em bolsa ou selecionadas para a negociação em sistema de negociação multilateral (por exemplo: Euronext Access ou Alternext, em Portugal);
  • A empresa de REIT tem de deter os activos que adquire por, pelo menos, três anos. Isto impede alguma especulação;
  • Os REITs são obrigados a distribuir os seus dividendos em pelo menos 75%.

Investir em REITs

Para poder investir em REITs precisa de compreender como é que funcionam e que tipo de REITs existem. Como tal, talvez lhe interesse recordar um vídeo que o nosso analista Artur Mariano fez para o nosso canal de Youtube sobre o assunto.

Tal como já explicámos, os REITs são os donos e os gestores dos imóveis. Estes imóveis podem, por exemplo, apartamentos, escritórios, centros comerciais, hotéis, entre outros. Cada REIT pode especializar-se em apenas um tipo de imóvel ou num tipo de área. Isto permite-lhe, por isso, investir numa grande variedade de tipos de imóveis e, com isso, ter um portefólio variado, com rendimentos diferentes e atractivos.

Como investir em REITs

Para investir numa destas sociedades só precisa de ir a uma correctora online e comprar acções para o REIT que preferir.

Uma mudança no paradigma do investimento imobiliário

Com a chegada dos REITs a Portugal assistimos a uma mudança no investimento imobiliário. Esta mudança dá uma nova vida ao imobiliário no nosso país. Isto acontece maioritariamente porque:

  • Pela forma de funcionar dos REITs. Não especulam a curto prazo e, em vez disso, focam-se no investimento a longo prazo. E porque têm obrigatoriamente de distribuir os seus dividendos.
  • Captam investimento externo. Por ser algo que já existe e é bem conhecido no exterior, os REITs vão atrair certamente investidores estrangeiros que já conhecem bem a legislação e forma de funcionar destes fundos. 

Espanha: Um Caso de Sucesso

Apesar de ainda não ser possível perceber como é que Portugal está a lidar com os REITs, aqui ao lado, em Espanha, o os REITs representam, sem dúvida, um verdadeiro caso de sucesso.

Durante os primeiros quatro anos após a aprovação de legislação para criação de REITs, em Espanha não houve nenhuma sociedade a formar-se nestes termos. No entanto, após esse tempo, começaram a surgir vários REITs e os espanhóis aderiram a esta nova forma de investimento entusiasticamente. Com os REITs um grande problema de Espanha com os créditos mal parados acabou por diminuir e é um bom exemplo para algo que pode vir a acontecer em Portugal.

Em conclusão

Os REITs vêm, sem dúvida, mudar a forma de investir em imobiliário em Portugal. Acima de tudo, a garantia de que os REITs são obrigados a distribuir dividendos cria um regime muito atractivo, principalmente comparado com outros tipos de fundos imobiliários. Por ser algo ainda muito recente no país, ainda não é possível avaliar o desempenho dos REITs no mercado português. No entanto, tal como fez nos Estados Unidos há cinquenta anos, estas sociedades de investimento vão abrir novas possibilidades a novos investidores, seja de que dimensão forem.